Fragata Independência retorna do Líbano

O retorno da fragata Independência à Base Naval do Rio de Janeiro, no sábado 26 de dezembro de 2020, marcou o encerramento de um dos mais importantes períodos operacionais da história da Marinha do Brasil. Por quase 10 anos um almirante da MB comandou a Força Tarefa Marítima (MTF na sigla em inglês) da missão de paz da ONU no Líbano (UNIFIL) com seu Estado Maior. Ao todo, seis navios da MB participaram desta operação na posição de nau capitânia do almirante brasileiro. Alguns destes navios, inclusive, voltaram repetidas vezes ao país do Oriente Médio. A principal classe de navio envolvida foram as fragatas classe Niterói, começando pela União (F45) que partiu para o Líbano em 6 de outubro, assumindo sua missão em Beirute no dia 25 de novembro de 2011.
Segundo o Almirante de Esquadra Alípio Jorge, Comandante de Operações Navais, “nossos navios continuarão contribuindo para a política externa do país com a segurança marítima no Entorno Estratégico, nossa região: América do Sul, Caribe, Atlântico Sul e no Golfo da Guiné. Motivos logísticos estratégicos e operacionais [levaram ao fim da participação da MB na UNIFIL. Temos novas ameaças pesca ilegal, tráfico pessoas, de drogas e contrabando[…]” Novas ameaças como a pirataria e o terrorismo estão surgindo no nosso próprio Entorno Estratégico. “Por conta disso, nossos meios navais passarão a se focar primariamente nestas ameaças mais próximas de nós, como as que ocorrem no Golfo da Guiné. O almirante disse: “Continuaremos participando da MTF com o envio de oficiais para tomar parte do seu Estado Maior […] o Brasil se ofereceu para seguir no comando da MTF mesmo sem dispor de uma nau capitânia, mas a Alemanha, que já tem um navio operando lá, se candidatou para substituir o Brasil no comando da MTF.”
Cada navio brasileiro operou no mediterrâneo por um período de seis meses, sendo ainda necessário dispor ainda de um mês de viagem até lá e outro para a volta. Há muito tempo que navios da Marinha do Brasil não passavam tanto tempo fora de suas bases.
O então Contra Almirante Luiz Henrique Caroli assumiu o comando da MTF ao chegar na base da ONU de Naqoura em fevereiro de 2011. Desde então, um total de dez almirantes brasileiros ocuparam esse comando gerando uma oportunidade única de desenvolvimento operacional para a marinha. Naqoura cidade fica ao sul do Líbano próximo à fronteira com Israel. A UNIFIL é uma das mais antigas missões de paz da ONU tendo sido criada em 1978. Após a invasão do sul do Líbano pela Israeli Defense Force (IDF) em 2006, os dois países buscaram na ONU uma maneira de permitir a retração das tropas e navios israelenses. A solução encontrada foi a expansão das tropas da UNIFIL usando-as para isolar a fronteira conflagrada. Para permitir reabrir os portos libaneses sem que isso representasse o risco de uma entrada irrestrita de armamento para o grupo islâmico radical xiita libanês Hezbollah foi instituído pela primeira vez uma força de paz marítima tendo a missão sido confiada pelos primeiros anos à OTAN, navios que foram primariamente comandados por almirantes italianos e alemães. Uma missão secundária da MTF é a de formação da Marinha Libanesa para que ela tenha capacidade de assumir essa missão no futuro.
Quando a OTAN solicitou à ONU sua substituição nessa missão que pouco tinha a ver com os objetivos da Aliança Atlântica, a ONU saiu em busca de algum país que atendesse a dois requisitos básicos, que fosse um país aceitável tanto ao lado israelense quanto ao libanês (isso excluiu a Turquia que havia demonstrado interesse) e que fosse uma marinha que tivesse a capacidade técnica e material de executar este comando. Tendo atuado com destaque no comando da missão de paz da ONU no Haiti (MINUSTAH) o nome do Brasil rapidamente subiu ao topo da lista de candidatos e o governo Lula, na época interessado em ocupar um assento no Conselho de Segurança da ONU, um espaço muito mais expressivo na gestão dos assuntos globais, abraçou a oportunidade. Navios e marinheiros de Bangladesh, Alemanha, Grécia, Indonésia e Turquia também são subordinados ao almirante brasileiro no Líbano.
Além da Fragata União operaram na MTF as fragatas Liberal e Constituição. As fragatas da classe Greenhalgh não foram enviadas porque como eles não dispõem de motores a diesel na sua propulsão, seu custo de operação em patrulha é substancialmente maior que o das Niteroi. A corveta Barroso, a despeito de não contar com misseis de defesa aérea (uma exigência da ONU), acabou sendo enviada por duas vezes realizar esta missão pela falta de disponibilidade das demais fragatas Niterói. Provavelmente a dolorosa lembrança das 34 vidas perdidas e 171 feridos a bordo do navio espião USS Liberty explica esse requerimento da ONU de auto defesa ampliada de seus meios navais. Em 1967 aviões e navios israelenses atacaram erroneamente o navio norte-americano após confundi-lo com um meio da Marinha Egípcia. Por conta de um defeito técnico em um dos eixos da União em 2015 o Navio Patrulha Oceânico (NaPaOc) Apa acabou sendo enviado ao Mediterrâneo para levar peças e substituir temporariamente a União na MTF.
Em agosto de 2020 a fragata Independência, por pouco, escapou de ser a principal vítima da terrível explosão que ocorreu no porto de Beirute. 2750 toneladas de nitrato de amônia, fertilizante e material base para fabricação de explosivos, armazenado num galpão do porto, devido às altas temperaturas do verão detonaram-se bem diante do local onde o navio brasileiro ficava atracado. Por ter saído para o mar oito horas antes da tragédia que destruiu todo o porto além de pulverizar fachadas por toda a zona central da cidade, o navio brasileiro e sua tripulação afortunadamente nada sofreram.
Em agosto de 2019 a Marinha anunciou a decisão do governo brasileiro de retirar definitivamente suas fragatas da MTF, resultado do grande desgaste que o longo período de destacamento no exterior está cobrando dos navios da classe Niterói e também porque o Líbano não se localiza no chamado Entorno Estratégicos Brasileiro que abrange primariamente as águas do Atlântico Sul. A Marinha, ao mesmo tempo informou que se a ONU resolver criar uma Maritime Task Force para o combater a pirataria no Golfo da Guiné o Brasil muito provavelmente se engajaria nesse esforço. Se for do interesse da ONU o Brasil poderá manter um almirante e seu Estado Maior no Líbano para seguir comandando a MTF mesmo depois de retirar seu navio.

Fotos: Leonardo Dias

Felipe Salles
Sobre Felipe Salles 4 Artigos
Editor do site BaseMilitar Web Magazine colaborador de sites e revistas como o site Defesa Aérea e Naval, revista AERO Magazine, Flight International e Warships IFR